Quem souber onde anda o
Antônio, as informações são muito bem-vindas. Ele tinha uma teoria sobre a “coisificação” da pele.
Tudo começou no dia em que ele veio à aula com as 3 “bolinhas” pretas tatuadas no antebraço. Numa sala de estudantes de artes plásticas, logo iniciava-se um debate em aula mesmo sobre o significado das tais “bolinhas”. Ele calmo, quase indiferente, dizia que tratava-se apenas da forma pela forma e nada mais. “Não tem que significar nada.”
Com o tempo, Antônio desenvolveu a “teoria da coisificação”. A pele como suporte de arte. A pele toda tatuada em preto apenas, com motivos criados por ele e um amigo tatuador co-autor do processo. Depois de todo tatuado, com as marcas de onde cortar inclusive, a pele serviria, por exemplo, para recobrir cadeiras. Ou escadas, paredes, luminárias e assim por diante. Onde eu entrava no projeto? Depois de todo tatuado, eu o fotografaria. Seguindo a orientação das marcas de cortes (também tatuadas), eu recortaria (digitalmente é evidente!) as imagens do antônio (agora coisa, então minúscula) e nós decoraríamos vários objetos, ou coisas se preferir.
Quando perdemos contato, ele e eu havíamos deixado de freqüentar as aulas da faculdade de artes plásticas, ele cozinhava comida indiana num restaurante badalado da Augusta, mas estava de partida, queria viajar para Alemanha se me recordo corretamente. Mas nessa época já estava com entorno de 60% do corpo tatuado. Faltavam as costas, partes íntimas e o restante do rosto. Nossos telefones mudaram, nossos e-mails mudaram e assim nos perdemos.
Se alguém souber onde anda meu querido Antônio (o “cara”) estou com saudade. As fotos aqui na galeria de texturas ilustram o processo, mas não são o produto, “a coisa”. No entanto não resisti a vontade de prestar uma homenagem com saudade do meu amigo querido.
Discurso & Pesquisa
Por Márcia Borlenghi
Publicado em julho de 2007
Tatuagem: a palavra vem do termo taitiano "tatau", a partir do inglês "to tattoo" e do francês "tatouage".
“... é tatuado e ponto final, reunindo advogados, promotores, juízes; dentistas, médicos, psicólogos, uma ou outra de suas recepcionistas; jornalistas; grupos de fieis de igrejas evangélicas; pelo menos três padres católicos; donas de casa, empregadas domésticas; socialites, burgueses, filhos de burgueses; políticos, filhos de políticos; mendigos; operários., prestadores de serviço, executivos e patrões; aeromoças; policais, militares – a lista não tem fim.”
Toni Marques, O Brasil Tatuado
e Outros mundos
Autores divergem quanto ao caráter da tatuagem contemporânea nos grandes centros urbanos. São apresentadas como modismo, ato de transgressão e/ou protesto, liberação da pulsão sexual, manifestação do individualismo pós-moderno, memória da pele, ato ritual com sentido social – com a intenção de pertencer a um grupo – , como um dos elementos da contemporânea body-art (literal: corpo-arte, ou corpo como objeto de arte) etc.
Considerando-se o valor estético da tatuagem, principalmente no que diz respeito à tatuagem feita nas últimas duas décadas, na cultura ocidental é pertinente citar que “Se queremos entender as regras éticas de uma sociedade, é a estética que precisamos estudar.” (Leach, E. 1967). Segundo Lagrou , a estética sem contexto não tem conteúdo, ou seja, que é impossível falar de arte (criação estética) ou de estética (percepção do belo) sem conhecer a fundo o universo imaginário e os valores éticos/ sociais de uma sociedade. “As expressões e percepções estéticas de diversos povos devem ser analisadas enquanto sistemas semióticos particulares que se articulam com (conversam com) outros sistemas de símbolos ou linguagens e percepções produzidas sobre e pelas sociedades (cosmologia, sociabilidade, sistema de valores, noção de pessoa, corporalidade, escatologia, estilo de vida, economia).”
No campo da moda, segundo Hahn, A.N. a relação da tatuagem com a moda é similar a da roupa em seu significado quanto a expressão da individualidade. A roupa tendo significado para o corpo assim como a tatuagem, sendo que esta última fica diretamente no corpo de forma perene.
Segundo Ferreira, V.S., seria o que ele descreve como “Expressões ´radicais` do corpo em contextos juvenis”. considerando a tatuagem e piercing, “em algumas culturas juvenis, a pretensão de viver 'à margem'...
...literalmente através de algumas inscrições corporais socialmente percebidas como excessivas, transgressoras do espaço de limites e possibilidades legítimas de utilização decorativa do corpo”. Considerando-se assim, a epiderme uma base de expressão individual e social, “utilizada como uma tela, sendo colonizada por objetos e tintas que a dotam de uma densidade iconográfica que ultrapassa a superficialidade opaca da carne...
...Por outro lado, a natureza subversiva e contestatória investida neste tipo de recursos por quem a eles recorre intensivamente, vai sendo simbolicamente reconvertida à medida em que o centro se vai apropriando das margens”, ou seja, a medida em que as manifestações vão sendo absorvidas nas correntes principais da moda, o que antes era um ato de rebeldia vai sendo intensificado, exacerbado nos recursos e intervenções, convertidos em modismo. Uma vez transformados, outros recursos vão sendo utilizados. “Hoje, em Nova Yorque e em Londres, com o piercing e a tatuagem domesticados pelo sistema enquanto recursos da moda, a referência dissidente incorpora-se através da escarificação epidérmica recorrendo a bisturi ou ferro em brasa (esta última ainda no domínio social de algumas comunidades Sado-Maso).”
Segundo Featherstone,M. é vista como um dos elementos da Body Modification (Modificação do Corpo) que nos últimos anos, têm vindo a ressurgir ou a emergir no mundo ocidental. Consiste em práticas que, “através de várias estratégias e instrumentos, pretendem a alteração da aparência ou da forma do corpo, a substituição dos seus orgãos, ou a extensão para além dos seus limites físicos. Da capacidade de intervir e de escolher entre diversas possibilidades plásticas e sensoriais, emergem novos modelos de corporeidade atravessados por uma idéia desnaturalizada de corpo” onde o corpo não é mais visto como algo fixo e sagrado, mas como “entidade volátil, inacabada ou até imperfeita.” Pertencem a esta categoria – Body Modification - práticas como o piercing, tatuagem, a musculação, a dieta, a cirurgia plástica ou as modalidades de fusão homem-máquina que as novas tecnologias permitem. Através delas podem ser (re)discutidas questões como a construção das identidades e sociabilidades.
Lins, considera a tatuagem, no âmbito identidade individual e do próprio grupo social, ou seja, como marca corporal primitiva afirma tanto a heterogeneidade das comunidades, assim como de seu indivíduos. A tatuagem teria assim, a função de prevenir o nivelamento e a massificação, que são ameaças internas de todo grupamento constituído, referindo-se às comunidades primitivas, objeto de seus estudos.
Brunel, considera em seus estudos que, “o ato da tatuagem constitui uma via de descarga das necessidades pulsionais expressas no vetor dos afetos.” Estabelecendo ainda distinção “entre dois tipos: ‘a tatuagem-econômica’ que concerne à resposta a um conflito, e a ‘tatuagem-mosaica’ pela qual o sujeito está numa dimensão onde seu corpo torna-se o objeto de um posicionamento estético.” Utilizando –se do método de Szodi em seu estudo, esclarece as categorias como sendo a “tatuagem-econômica" sinaliza a “incapacidade do sujeito de separar-se, e a tatuagem toma então o valor da recusa contra a perda.” Quanto a “tatuagem-mosaica”, o teste aplicado traduz o desejo de apropriar-se das coisas apreciadas a fim de obter segurança proporcionada pela possessão.

“O sujeito está insatisfeito, procura sempre outra coisa sem saber o que, desejoso de uma transformação contínua do seu ambiente ao qual seu corpo se apega pela projeção : procura o novo, na ilusão de que em alguma parte existe alguma coisa suscetível para satisfazê-lo, abrindo o caminho para a criatividade e a inventividade.”
Ainda segundo Lins, “a história da tatuagem é a história do homem: desde os começos os homens se tatuam, mesmo se cada sociedade guarda suas singularidades, para além das teorias da representação e, por amálgama, da identidade. Primeira escrita do homem, a tatuagem é a mais antiga e é o modo universal, modo de expressão simbólica”.
Dentre as definições apresentadas, destaco a observação de Lévi-Strauss, a tatuagem ''é a passagem do estado de natureza ao de cultura''.
“Se queremos entender as regras éticas de uma sociedade, é a estética que precisamos estudar.”
Leach, E. 1967
"A arte primitiva é uma mina de informação para o historiador e o antropólogo, mas, para entendê-la e apreciá-la, é mais importante olhá-la que aprender a História dos povos primitivos, sua religião e costumes sociais. (...)”
Henri Moore
“(...) cada civilização representa o esforço cultural direcionado ao aprimoramento dos valores que norteiam determinado grupo, reunindo e direcionando características da vida social, política, econômica e cultural de um povo.”
ADAMS, Mark. "Depoimento manuscrito à curadora
Louise Neri sobre suas motivações", 31 maio 1998.
“Modernos Primitivos – Hoje temos o conceito de primitivos modernos. Pessoas do Primeiro Mundo e, por extensão, de uma parte do Terceiro, cuja identidade psíquica só existe se endossada pela exibição do resultado de um ritual primitivo: tatuagem, piercing, branding ou escarificação. Pessoas riscadas, furadas, marcadas a ferro quente ou cortadas num mundo cada vez mais numerado e produtivo.”
Toni Marques, O Brasil Tatuado
e Outros mundos
Mário de Andrade diz: "Não sabemos como se originou a pintura, mas é muito mais provável que sua primeira conceituação no espírito humano tenha provindo dos rabiscos rituais, em preto, em vermelho, em branco, com que todos os povos primitivos se enfeitam no corpo, para os cerimoniais. (...) A pintura do corpo (...) é sempre uma escritura, de natureza hieroglífica. Hoje isso é questão passiva da etnografia, e sabemos definitivamente que a cada rabisco, a cada cor, a cada mancha, a cada decoração enfim, os primitivos atribuem um valor simbólico, e cada elemento quer dizer alguma coisa compreensível à inteligência do clã ou pelo menos de seus pajés. Tudo tem sentido, tudo tem valor de magia exorcista ou propiciatória, e o primitivo jamais se pinta pelo simples prazer de se enfeitar. (...)
Almanaque Brasileiro de Tatuagem. São Paulo: Escala, 2003. Mensal.
ANDRADE, Maria Margarida de. Introdução à metodologia do trabalho científico. 6 ed. São Paulo: Atlas, 2003.
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LAGROU, Elsje Maria. O que nos diz a arte kaxinawa sobre a relação entre identidade e alteridade?. Mana, abr. 2002, vol.8, no.1, p.29-61. ISSN 0104-9313.
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RAMOS, Célia Maria Antonacci. Teorias da tatuagem – corpo tatuado “uma análise da loja Stopa Tatoo da Pedra”. Florianópolis: UDESC, 2000.
Tattoonet – O Portal da Tatuagem no Brasil! Disponível em http://www.tattoonet.com.br/center.htm. Acesso em 06 abr.2003.
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MOORE, Henri. On sculpture and primitive art, 1941. In: HERBERT, Robert L (Org.). "Modern artists on art. N.J.: Prentice Hall. Apud Louise Néri.
ANDRADE, Mário de. Do Desenho. In: "Aspectos das artes plásticas no Brasil". - Belo Horizonte: Itatiaia, 1984.