Discurso & Pesquisa

O tempo de distopia

por Márcia Borlenghi
em 28/02/2008

 

 

 

 

Fahrenheit 451 (o Filme)


Em uma sociedade futurista, os livros são proibidos e, assim que encontrados, queimados pelos bombeiros, como se fossem uma ameaça a esta sociedade. Deste paradigma sai o título do livro: a temperatura na qual o papel pega fogo.
A história retrata o bombeiro Guy Montag, que começa a questionar a maneira como as coisas funcionam e o perigo representado pelos livros. Não demora muito para ele perceber a futilidade da sua vida e de sua mulher Mildred, perdida entre paredes falantes e famílias virtuais.
O diretor francês François Truffaut adaptou este livro para o cinema em 1966.
- Um diálogo entre Montag e seu superior no esquadrão:
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/6b/Cquote1.png/20px-Cquote1.png— O que faz nas horas de folga, Montag?
— Muita coisa... corto a grama...
— E se fosse proibido?
— Ficaria olhando crescer, senhor.
— Você tem futuro. http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/33/Cquote2.png/20px-Cquote2.png
(fonte:Wikipédia)

 


Fico pensando...

quantas pessoas conheço que se sentem exatamente assim, prontas para olhar a grama crescer, sem questionar, sem mesmo pensar. Seguindo uma dislógica, nessa distopia contemporânea.

Em uma conversa dessas que pessoas deveriam ter com mais freqüência, ouvi uma jovem, não mais que vinte e cinco anos de idade, dizer que eu vivia uma utopia por acreditar em respeito e ética:


__“...o Brasil é assim mesmo, você olha muito o lado humano... as coisas não funcionam assim...na prática é assim que funciona, que ética? ”

 

Falávamos de comportamento ético, de seguir fazendo o que é certo de acordo com nossos padrões morais, basicamente exercitar o respeito ao próximo, ao profissional, ao ser humano. Coisas do cotidiano como não se aproveitar das necessidades e dificuldades dos outros. E a cada argumento meu sobre como tenho tido experiências gratificantes com profissionais com os quais ocasionalmente trabalho, eu ouvia um riso descrente:


-- ...isso é minoria... não funciona assim... a maioria não é assim...

Falei a ela que ela era nova demais para ser tão desiludida, parecia amarga. Mas não usei as palavras corretas no momento. E isso fez com eu ficasse com essa conversa me incomodando. E como o dia seguinte mostra o que não vimos anteriormente, esta manhã o que eu lembrava era de filmes como Mil novecentos e oitenta e quatro (1984),  Fahrenheit 451, Adimirável mundo novo...


Acordei com a sensação que infelizmente há muitos superiores de esquadrões tentando fazer com que os jovens “Montags” jamais encontrem a capacidade de ver e pensar. O que é uma maldade.


Uma manhã sombria é esta em que percebo fazer parte dos que resistem.  
Lembrei de meu pai, que em sua simplicidade popular dizia “então se todo mundo pular da ponte você pula também?”
Não, pai, você me ensinou a pensar. Depende, não é?. Preciso pensar a respeito e analisar se é bom ou não, se é certo, se respeita meus valores, se respeita meu próximo, se há algum aspecto necessário em pular! E só se for bom, então eu pulo ou não.

 

Márcia Borlenghi © 1986 - 2007
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