Discurso & Pesquisa
Pesquisa por Márcia Borlenghi
"I wanted to make a cinema of ideas, not plots, and to use the same aesthetics as painting, which has always paid great attention to formal devices of structure, composition and framing."
Peter Greenaway
Peter Greenaway é descrito por críticos, como sendo um diretor que busca romper com o conceito de que o cinema é meramente a ilustração de um texto narrativo, apesar do respeito ou do fascínio das imagens sobre o texto. Apesar das técnicas. É também apontado como um autor que faz largo uso da função metalingüística, que centralizada no código usa a linguagem para falar dela mesma. Por exemplo a poesia que fala da poesia, da sua função e do poeta, um texto que comenta outro texto, como é o caso em cenas de O Livro de Cabeceira em que o jogo temporal entre passado, presente e futuro, utiliza-se da multiplicidade de telas que fazem referência umas as outras.
Peter Greenaway busca na simultaneidade do tempo narrativo, mostrar uma realidade composta por múltiplas camadas. Nos filmes “O livro de cabeceira” e “8 ½ mulheres”, num mesmo momento, sobrepostos, são vistos planos gerais e detalhes de uma mesma cena, janelas que se abrem para comentar a cena ou introduzir uma outra.
Quanto ao “Cozinheiro, o ladrão, sua esposa e o amante”, a intertextualidade se dá através da composição da cena também em camadas, por exemplo com a quadro ao fundo durante as cenas das refeições, e a repetição de elementos que reforçam a identificação da referência. As cenas são compostas pictoricamente e os travellings atuam de forma teatral a enfatizar os elementos barrocos da composição. Assim a leitura do filme se processa além da horizontalidade da imagem, mas também na profundidade desta e suas camadas de composição. As camadas a semelhança da composição filmica digital contemporânea, estabelecem ritmos visuais e auditivos, por exemplo a voz do “Ladrão” que nos primeiros quase 30 minutos do filme constituem a linha condutora de apresentação dos elementos que o diretor oferecerá ao espectador, em seqüência de cores, elementos, ritmos e até mesmo a “moral da história”. Uma espécie de introdução à obra.
A sofisticação que Peter Greenaway apresenta em seus filmes entende romper com o que ele chama de "cinema conservador", utilizando "algo de televisão, algo de cinema e algo de pintura", além é claro de algo de teatro, algo de ópera e assim por diante.
“Nossa mente é capaz de registrar simultaneamente milhares de imagens e sons, sendo que tendemos a priorizar aquilo que nosso foco de atenção determina.
Cada vez mais as novas técnicas permitem que o cinema proceda de maneira semelhante, chegando ao que Eisenstein desejava: ‘o cinema deve ser materialização do pensamento em movimento’.”
MOURAO, Maria Dora. O tempo no cinema e as novas tecnologias.Cienc. Cult. [online]. Oct./Dec. 2002, vol.54, no.2 [cited 27 February 2007 lang=EN-US>], p.36-37. Available from World Wide Web: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252002000200027&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0009-6725.
“Cromberg afirma que o pensamento por imagens de Greenaway lida com os chamados ‘traços lektônicos’, conceito utilizado por Julia Kristeva para referir-se aos ‘processos pré-verbais, semióticos, no funcionamento simbólico completo de um sujeito que fala, feitos ao mesmo tempo de linguagem e de representação: deslocamentos, condensações, tons, ritmos, cores, figuras, sempre em excesso em relação ao representado, ao significado’1.
1 Julia Kristeva et al, "Elipse sobre o pavor e a sedução especular", in Psicanálise e Cinema, Lisboa, Relógio d’Água, 1984, p. 28. (Apud Renata Cromberg, no artigo acima comentado, p. 153).”
ROSENBAUM,Yudith. A fala da imagem, http://www2.uol.com.br/percurso/ . Em 28/02/2007
“No caso de O ano passado em Marienbad, o filme explora as zonas de inconsistência do tempo e da memória, a partir da diluição dos limites entre realidade e imaginação. Com um anti-enredo que trata fundamentalmente da ‘história de uma persuasão’ , na qual a realidade é criada sobretudo através da palavra, o filme joga com a sincronia do tempo e com a temporalidade do espaço, à medida que mistura presente, passado e futuro em um espaço móvel, vertiginoso, representado pelas salas, corredores e jardins labirínticos de um hotel barroco, onde perambulam hóspedes anônimos e impassíveis.
O extrato sonoro do texto de Robbe-Grillet, reforçado pelos timbres e modulações das vozes dos personagens, adquire nos monólogos e diálogos descontínuos uma dimensão estrutural. Os travellings são hipnóticos, como o são também os movimentos quase fantasmagóricos das personagens que circulam pelos corredores do palácio, como se tivessem saído de um sonho. Além disso, não há qualquer tentativa de representação de algo exterior à própria imagem, e sim de apresentação desta, em toda sua potencialidade sinestésica. Isso porque o enredo é menos uma história que se conta do que um conjunto intrincado de imagens, sons, texturas, tempos, espaços, sensações, vozes, olhares, palavras, movimentos, realidades estranhas extraídas da realidade prosaica, silêncios, desejos, ambigüidades e paradoxos.
Foi exatamente a genial complexidade de O ano passado em Marienbad que motivou o cineasta britânico Peter Greenaway a elegê-lo como o filme que mais instigou até hoje a sua própria imaginação. O que não é de se estranhar, visto ser o cineasta britânico um dos poucos cineastas atuais que, ao se valer de um texto literário, busca extrair não necessariamente o que este oferece em termos de enunciado, mas, antes, sua corporalidade sonora, tátil e visual, deflagradora de sentidos múltiplos e imprevisíveis.
Greenaway, que sempre se insurgiu de forma radical contra o que chama de compulsão ilustrativa do cinema contemporâneo (à medida que este - mesmo depois dos abalos radicais provocados no mundo literário por autores como Joyce, Borges e Calvino - continuaria a serviço da ilustração previsível de enredos moldados segundo a lógica narrativa dos romances do passado) não deixa de apontar também a necessidade de o cinema aproveitar de forma mais criativa os recursos oferecidos por outras artes e pelas novas tecnologias, como forma de potencializar as possibilidades sinestésicas de sua própria linguagem.”
MACIEL,
Maria Esther.
Poesia à flor da tela (de Buñuel a Greenaway)
http://www.revistazunai.com.br/ensaios/maria_esther_maciel_poesia_aflordatela.htm
Em 28/fev/2007
De modo simplificado, é linguagem utilizada para abordar outra linguagem.
Samira Chalhub, em A Metalinguagem , ao discutir o conceito estabelecido por Walter Benjamim sobre A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução:
“A metalinguagem, como traço que assinala a modernidade de um texto, é o desvendamento do mistério, mostrando o desempenho do emissor na sua luta com o código. O poema moderno é crítico nessa dimensão dupla da linguagem - que diz que sabe o que diz. Um metapoema não é aurático, e isso porque sua feitura está à mostra, dessacralizada e nua. Resultado da multiplicação dos códigos, que colocou em xeque o ideal de representação da arte, o metapoema instaurou a lucidez de que a palavra, não mais mero veículo, possui a dimensão de sua própria materialidade sonora, visual. Ensinou também que é possível o diálogo entre vários códigos. Ensinou a prática textual da descoberta.” (Chalhub,1986:47)
“Uma mensagem organiza-se de modo a provocar reconhecimento de conceitos e formas já adquiridas pelo receptor porque fazem parte do senso comum, da cultura.” (Chalhub:1986: 15)
CHALHUB, Samira. 1995. Funções de Linguagem. São Paulo: Ática.
_______________. 1986. A metalinguagem. São Paulo: Ática.
A marcante presença da intertextualidade é característica cultural da Pós-Modernidade (JAMESON, 1996), segundo observa Linda Hutcheon (1991), que ratifica a elaboração de Kristeva sobre a pluralidade de textos no texto e a impossibilidade de se encontrar a “fonte original” onde nasce o texto.
Intertextualidade que tem na paródia sua forma mais vigorosa, conforme argumenta a autora, presente não só na “metaficção historiográfica”, mas de forma candente na literatura e até na música. Dessa forma, Hutcheon faz coro com outros autores, como Laurent Jenny, para quem a intertextualidade não é somente o aproveitamento bem educado, ou citação da Grande Biblioteca, para se tornar estratégia da mistura; e estende-se para fora do livro, a todo discurso social.
Trata-se de construir à pressa técnicas de destruição, para responder à omnipresença dos emissores que nos alimentam com o seu discurso morto (mass media, publicidade, etc.) (JENNY, 1979, p. 48-49)
Já David Harvey (1993), em A Condição Pós-Moderna, não ancora seu pensamento no conceito da intertextualidade, que é citada entre aspas para conferir ao termo a condição de exterioridade a seu discurso. No entanto, quando o autor analisa os filmes Blade Runner
Asas do Desejo como exemplos das características da cultura do pós-modernismo, o faz através de uma rede de significações possível somente com a descoberta de textos sobrepostos.
Movimento semelhante ao de Hutcheon é realizado por Omar Calabrese (1999), quando trata da “citação neobarroca” ao mostrar, como exemplos claros, o livro O Nome da Rosa – protótipo da citação neobarroca – e o filme Os Caçadores da Arca Perdida, em que tudo é citação:
Todos sabem, com reconhecimento dos autores e com a demonstração dos críticos, que o livro e o filme são literalmente amontoados de citações. Eco sustenta que no romance não há uma só palavra sua. Spielberg encheu o filme com cerca de 350 referências a outras obras, cinematográficas ou não.
(CALABRESE, 1999, p. 187)
SILVA, Terezinha Elisabeth da. Livro e cinema: intertextualidade e memória.
São muitos os questionamentos acerca do trabalho estético do cineastra inglês Peter Greenaway. Tudo parece um devaneio em sua obra.
Ele faz uma reunião de diversas áreas num mesmo contexto, que estrutura um corpus sob a forma de mosaico, insere perspectiva, subjetivos de ambiguidade, exesso e repetição.
Sua produção é artística e variada entre diferentes campos das artes plásticas, fotografia, literatura, ópera e vídeo.
Seu projeto estético insólito, bizarro, hermético e complexo. Ele rompe com certos princípios da estética da imagem – a ilusão e o encantamento perplexo.
Ele trata verticalmente de diferentes áreas das práxis humanas: cinema, vídeo, teatro, literatura, psicanálise, filosofia, antropologia, história, gastronomia, culinária, violência, sexualidade e religião. Ele transpôe uma intercambialidade de dados, os quais interagem entre si através do deslocamento.
A superposição de imagens imbrica as informações de vários focos, isto é, cria, com o movimento de deslocamento de percepção, um resultado em vários ângulos distintos. Por outro lado, quase que neutraliza o objetivo, uma vez que, diante desse acúmulo de elementos a serem decodificados (num mesmo plano), torna-se quase impossível uma leitura singular das “coisas” – objetivos, apresentados como rastro de uma indiciação de signos -, analisa a posteriori, pelo espectador que chama pela apreenção de um turbilhão de imagens – informações excessivas (para um determinado público) geradoras de um mal-estar. Estudar esse cineastra nos proporciona uma visitação a outras demais artes, como: fotografia, música, pintura, desenho, arquitetura e literatura.
Peter Greenaway é cineasta britânico, mas também roteirista, escritor e pintor.
Nasceu em Newport (País de Gales), em 5 de abril de 1942. O pai, um ornitólogo diletante, transmitiu-lhe a paixão pelos pássaros e, de certa forma, isso terá grande importância em muitos de seus filmes. Quando criança, Greenaway e a família mudaram-se para Londres. É na capital britânica que, aos 16 anos, ele é convidado por um amigo para assistir a uma projeção de "O Sétimo Selo", de Ingmar Bergman. Esse evento marcará profundamente sua decisão de se tornar cineasta. Desde aquele momento desenvolverá uma grande paixão pelo cinema, e em particular por cineastas como Antonioni, Godard, Truffaut e Resnais. "O Ano Passado em Marienbad" e "Acossado" encabeçam a lista de seus filmes preferidos. Contudo, sua tentativa de ingressar na Royal College of Art Film fracassa; ele matricula-se, então, no Walthamstow College of Art. Passa a dedicar-se à pintura e tem sua primeira mostra na Lord’s Gallery, em 1964. Ao mesmo tempo, começa a escrever romances e contos, inspirados particularmente em J.L.Borges e Ítalo Calvino. Mesmo se dedicando inicialmente à pintura, Greenaway encontrou trabalho no Britsh Film Institute, onde teve oportunidade de assistir a muitos filmes experimentais clássicos, comprou uma Bolex de 16mm e começou a realizar curtas com recursos próprios. Em 1965, após uma breve incursão pela crítica cinematográfica, começa a trabalhar como técnico de montagem na Central Office Information. Entre os 80 documentários do qual participou pelo COI estão: "Train" e "Revolution". Até 1978, seus curtas e documentários para TV atraíram a atenção internacional e venceram muitos prêmios, mas é só em 1978, com "A Walk Through H" (produzido pela British Film Institute), que Greenaway alcança efetivamente sucesso internacional, ao obter o Prêmio Hugo no Festival de Chicago. Animado com as perspectivas que se abrem, dá à luz seu primeiro longa, "The Falls" (1980), com o qual vence o Age d’Or em Bruxellas. Após "The Falls", o longa seguinte será "O Contrato do Amor" (1982), que é apresentado no Festival de Veneza. Embora "O Contrato do Amor" não tenha vencido o Festival, é com esse filme que Greenaway firmará seu nome entre os grandes inovadores do cinema, ao obter ótima acolhida tanto de público quanto de crítica.
Greenaway é personalidade das mais instigantes da cena atual. Sua obra caminha das artes plásticas, da montagem e do documentário ao cinema experimental. Artista multimídia, o maior exemplo da criatividade de Greenaway foi o evento 100 Objetos, apresentado em Viena em 1991, com uma ópera, vídeos, quadros e filmes. Na ocasião, o artista recolheu 100 objetos para representar a Terra e não deixou de lado sua fina ironia, a morbidez, a erotização, enfim, os elementos obrigatórios de sua concepção de arte. Com formação em artes plásticas e literatura experimental, Greenaway aproveita essas possibilidades em sua obra fílmica: usa pinturas para ilustrar seus filmes (bem como parte dos cenários), escreve os roteiros, faz storyboards e cria os figurinos. Daí que seus filmes sejam composições elaboradas com forte impacto visual: seus enquadramentos são compostos como pinturas; a estaticidade de suas cenas sustenta-se no uso muito lento do zoom e em longos e solenes travellings laterais; são poucas as concessões à narrativa cinematográfica tradicional. De certo modo, pode-se dizer que sua obra fílmica é apenas uma parte de um grande volume de trabalhos que vão de desenhos a instalações, de performances ao vídeo, de óperas à internet, de exposições a todo tipo de evento multimídia.
Death of Sentiment (1962)
Tree (1966)
Train (1966)
Revolution (1967)
5 Postcards From Capital Cities (1967)
Intervals (1969)
Erosion (1971)
H Is for House (1973)
Windows (1975)
Water Wrackets (1975)
Water (1975)
Vertical Features Remake (1976)
Goole by Numbers (1976)
Dear Phone (1977)
A Walk Through H: The Reincarnation of an Ornithologist (1978)
Eddie Kid (1978)
Cut Above the Rest (1978)
1-100 (1978)
Zandra Rhodes (1979)
Women Artists (1979)
Leeds Castle (1979)
Lacock Village (1980)
The Falls (1980)
Country Diary (1980)
Terence Conran (1981)
The Draughtsman's Contract (1982)
Four American Composers (1983)
The Coastline (1983)
Making a Splash (1984)
A Zed & Two Noughts (1985)
Inside Rooms: 26 Bathrooms, London & Oxfordshire (1985)
The Belly of an Architect (1987)
Drowning by Numbers (1988)
Fear of Drowning (1988)
The Cook, the Thief, His Wife & Her Lover (1989)
Hubert Bals Handshake (1989)
Prospero's Books (1991)
Rosa (1992)
The Baby of Mâcon (1993)
Stairs 1 Geneva (1995)
Lumière et Compagnie (1996)
The Pillow Book (1996)
The Bridge (1997)
8½ Women (1999)
The Death of a Composer: Rosa, a Horse Drama (1999)
The Man in the Bath (2001)
Cinema16 (2003)
The Tulse Luper Suitcases, The Moab Story (2003)
The Tulse Luper Suitcases, Antwerp (2003)
The Tulse Luper Suitcases, Vaux to the Sea (2004)
The Tulse Luper Suitcases, Sark to the Finish (2005)
A Life in Suitcases (2005)
Visions of Europe (fragmento "European Showerbath", 2004)
Nightwatching (em produção, 2007)